As ladeiras do Pelourinho guardam séculos de história nas paredes de pedra e nas cores dos casarões coloniais. Mas nas últimas temporadas, uma nova camada visual se sobrepõe ao patrimônio oficial: murais de grafite que dialogam com a memória afro-brasileira, a resistência negra e a estética contemporânea. O que antes era visto como vandalismo por parte de órgãos de preservação agora ganha reconhecimento como expressão cultural legítima — embora os tensionamentos ainda sejam frequentes.
O coletivo Paredes Vivas é um dos protagonistas dessa transformação. Fundado em 2021 por cinco artistas visuais de bairros periféricos de Salvador, o grupo ocupa muros em diferentes pontos da cidade com autorização de moradores e, quando possível, de instituições culturais. Seu trabalho mais recente, no muro de um terreno baldio na Ladeira do Carmo, retrata cenas do candomblé contemporâneo em escala monumental: caboclas, orixás e elementos da natureza se misturam em uma paleta vibrante que pode ser vista a quilômetros de distância.
"A rua é nossa galeria. Não pedimos permissão para existir, mas negociamos respeito", diz Bárbara Nascimento, uma das fundadoras do coletivo. Formada em artes visuais pela UFBA, ela cresceu no bairro de Plataforma e viu o grafite como forma de ocupar espaços que a cidade negava à juventude negra. "Quando você pinta um muro no Pelourinho, não está apenas decorando. Está reescrevendo quem tem direito de contar a história desse lugar."
"Arte de rua em Salvador sempre existiu. O que mudou é que agora os artistas se organizam, se articulam e exigem reconhecimento", observa o curador e historiador da arte Dr. Moacyr Cerqueira.
Além dos murais, ocupações culturais temporárias ganham força na cidade. O projeto Ladeira Aberta transforma, uma vez por mês, trechos do Pelourinho em circuito de arte: performances, instalações, feiras de artesanato e rodas de conversa ocupam espaços que durante o dia funcionam como roteiro turístico convencional. A iniciativa é autogerida por moradores e artistas locais, sem patrocínio de grandes empresas. O financiamento vem de venda de camisetas, contribuições voluntárias e parcerias com pequenos comércios do bairro.
Na Liberdade, bairro com forte presença afro-brasileira, o Muro da Memória é um projeto permanente que combina arte de rua com educação patrimonial. Cada painel do muro de 80 metros conta um episódio da história negra de Salvador: desde a chegada de africanos escravizados até movimentos contemporâneos como o Black Lives Matter. Escolas da região usam o muro como material didático, e guias comunitários conduzem visitas gratuitas aos finais de semana.
Os conflitos, porém, persistem. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional já emitiu alertas sobre intervenções em edificações tombadas. Em fevereiro deste ano, um mural no Pelourinho foi parcialmente apagado por determinação judicial após reclamação de um proprietário de pousada. A comunidade artística respondeu com a campanha "Muro Não É Parede de Privatário", que reuniu mais de 2.000 assinaturas pedindo regulamentação clara para arte de rua em áreas históricas.
A prefeitura de Salvador sinalizou disposição para dialogar. Em abril, foi lançado um edital inédito para mapear e registrar artistas de rua na cidade, com previsão de criação de muros legais em áreas designadas. Críticos apontam que a medida, embora bem-intencionada, pode limitar a espontaneidade que caracteriza o movimento. "Regularizar não significa controlar", responde a secretária de Cultura em entrevista ao Impulso Cidade. "Significa proteger os artistas e garantir que o trabalho deles seja preservado."
Enquanto o debate institucional avança, os artistas continuam pintando. Na noite em que visitamos o Pelourinho, três membros do Paredes Vivas trabalhavam sob a luz de refletores portáteis em um muro nos fundos da Ladeira das Portas do Carmo. O tema da noite: Iemanjá em versão futurista, com elementos de ficção científica e tradição iorubá. Moradores passavam, paravam, tiravam fotos. Uma senhora deixou um prato de acarajé para os artistas. "Isso aqui é o que mantém a ladeira viva", ela disse. "Turista vem e vai. A arte fica."